Antes de perguntar se uma geração gosta de ler, é preciso perguntar a que livros consegue chegar. O escritor guineense Abdulai Silá colocou o acesso à literatura no centro de uma entrevista publicada pela FEC em 21 de dezembro de 2017.
Nessa conversa, Silá defendeu a presença da literatura guineense na escola e relacionou a leitura com a construção de uma pertença comum que não excluísse outras identidades. Falou também da preparação de contos tradicionais em português e crioulo e das dificuldades de circulação dos livros. São observações e projetos descritos naquele momento; esta releitura não afirma que as mesmas condições permaneçam hoje sem alterações.
Fonte consultada: FEC / e-NCONTROS. Entrevista da FEC a Abdulai Silá. Data/contexto: 2017-12-21. https://www.fecongd.org/2017/12/21/ninguem-pode-amar-o-que-nao-conhece-entrevista-ao-escritor-guineense-abdulai-sila/
Para a Sombla, o valor desta discussão está em deslocar a responsabilidade: formar leitores não pode depender apenas da vontade individual de uma criança. Há decisões sobre distribuição, seleção, preço, empréstimo e acompanhamento da leitura. Um exemplar fechado num armazém não produz o mesmo efeito que um livro disponível numa escola.
Também seria insuficiente defender os autores locais apenas em cerimónias. É possível propor clubes de leitura, encontros com escritores e materiais que aproximem a oralidade da escrita, sem tratar uma como inimiga da outra. O passo seguinte, para qualquer reportagem, seria verificar o que já existe e ouvir quem o mantém. Reconhecer esse trabalho evita anunciar como novidade aquilo que uma comunidade constrói há anos.
Nota editorial: análise original Sombla a partir de uma fonte pública identificada. A personalidade retratada não assina este texto, não foi entrevistada pela Sombla para esta peça e não é apresentada como colaboradora do projeto.